TRILHA SONORA

quinta-feira, 20 de julho de 2017

VOCÊ SABE O QUE CANTA?



A letra da música Vidinha de Balada foi composta por Diego Silveira, Lari Ferreira, Nicolas Damasceno e Rafael Borges, que já tem outros trabalhos divulgados na voz da dupla Henrique e Juliano. A fama chegou para os irmãos do interior de Tocantins em 2013, quando lançaram o primeiro DVD e tiveram como sucesso “Recaídas” e “Gordinho Saliente”, no entanto o apogeu se deu com a letra que ganhou a mídia e a “loucura” das fãs – Vidinha de balada. 

Curioso pensar que foi necessário quatro pessoas para escrever: 

Oi, tudo bem?
Que bom te ver
A gente ficou, coração gostou
Não deu pra esquecer

Desculpa a visita
Eu só vim te falar
Tô a fim de você
E se não tiver, você vai ter que ficar

Eu vim acabar com essa sua vidinha de balada
E dar outro gosto pra essa sua boca de ressaca
Vai namorar comigo, sim!
Vai por mim, igual nós dois não tem
Se reclamar, cê vai casar também
Com comunhão de bens
Seu coração é meu e o meu é seu também

Vai namorar comigo, sim!

Daí, a imaginar que dezenas de centenas de mulheres brasileiras se familiarizam com um enredo em que a figura feminina é imposta à vontade masculina, nos faz pensar que, se a língua é o estabilizador mais poderoso das recordações (ASSMANN, 2011), a linguagem aparece não só como recurso da lembrança, já que, lembramos do que verbalizamos, mas tem caráter performativo através da auto atribuição.

O fato é, que muitas pessoas não analisam o que cantam ou o que escolhem como “hino”. 

Num primeiro ponto de vista, poderíamos imaginar um gesto apaixonado em: Desculpa a visita/Eu só vim te falar/Tô a fim de você... Mas, o ato de inferiorização e imposição se dão quando passamos a analisar a presença do “se”, conectivo condicional que tem a função de ligar ideias entre oração principal e subordinada, em (...) E se não tiver, você vai ter que fica (segundo verso) e (...)Se reclamar, cê vai casar também (no refrão), percebemos que a conjunção vai além do valor sintático, mas numa perspectiva de análise discursiva a mulher não tem vontade própria, ela está sendo imposta a “amar” ainda que não queira. 

E num contexto mais abrangente do refrão: Vai namorar comigo, sim!(...) Se reclamar, cê vai casar também/ Com comunhão de bens, percebemos, que além da fala herdada da cultura patriarcal, onde a mulher não opinava sobre seus desejos e sentimentos, mas se casava em detrimento à vontade do Pai ou da compra do dote pelo futuro marido; que posteriormente tornava-se o herdeiro da fortuna da família, além de ter uma vida sexual de “obrigações”, nos deparamos com o consentimento do discurso machista, pelas mulheres que não só cantam a música supracitada, como também se sentem homenageadas. 

É um sentimento ilusório, mantido pela ignorância e pela falta de análise linguística.

Em vista disso, inúmeras vezes a mulher é tida como objeto sexual, porque a mídia viraliza o estereótipo de vulgaridade e apologia ao estupro, como algo comum, a partir de uma máscara de sensualidade. Tanto que, alguns estilos musicais e até mesmo propagandas com fins lucrativos, só fazem alusão ao sexo, à festas e bebidas, com a figura feminina estando em situação de promiscuidade. Ninguém se sente atraído por um homem tentando vender cerveja, por exemplo, ou por uma religiosa vendendo sandálias... A ideia da venda de produtos com mulheres vestindo pouca roupa (ou nenhuma), com corpos esculturais (até pra vender shampoo), extremamente maquiadas etc, tornam clara a ideia de subjulgamento de que a mulher, não está só vendendo o produto, mas é o próprio produto.

Devemos, então, ter um olhar mais cuidadoso com a linguagem usada em certos tipos de gêneros textuais e que por falta de atenção, arrastamos para o nosso dia a dia. Nem tudo é o que parece!

Referências Bibliográficas:
ASSMANN, Aleida. Espaços da recordação - Formas e transformações da memória cultural. Campinas: UNICAMP, 2011.

Por Helena Cardoso

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