TRILHA SONORA

sexta-feira, 5 de maio de 2017

DIÁRIO DE BORDO


Eu sou o tipo de pessoa que sai puxando conversa com quem senta do lado no avião, a fim de amenizar a tensão pelo medo de altura, e a conversa de hoje merece ser registrada aqui, porque me trouxe uma grande lição de vida.

Chamava-se Aparecida, a senhora que viajou do meu lado por pouco mais de uma hora e meia. 

Acho, que dona Aparecida, assim como eu, também fica ansiosa nas viagens, porque foi ela que começou a falar: "Você mora aqui? (referindo-se à Campina Grande)". Respondi que sim e ela continuou -- "eu estou indo para casa, vim visitar meu namorado." -- arregalei os olhos, mas não questionei. E ela completou -- "Tenho setenta e nove anos. Fui casada por quarenta e fiquei viúva há três! Antônio, meu namorado, também, foi casado quase quarenta anos, e ficou viúvo há dois. Nós namoramos na adolescência... Na nossa época, não era como hoje, que você começa a namorar agora e no outro dia já está morando junto com a pessoa. Na minha época era diferente. Nós só pegávamos na mão e olhe lá. Antônio foi meu primeiro namorado, meu primeiro amor e único, até hoje. A vida se encarregou de nos separar por mais de quarenta anos. Depois que casei e ele também casou, nunca mais tínhamos nos visto. Quando fiquei viúva e ele soube, sua esposa também já estava à beira da morte, ele me visitou, um dia. E disse que a doença dela não tinha cura, estava definhando, morrendo... Que tinha feito um juramento e cuidaria dela até a morte, mas que depois que ela partisse, gostaria de viver comigo o amor que deixamos pra trás. Que agora, no fim, tinha se dado conta do quanto a vida passa rápido e a gente só reconhece o que perdeu, quando a única opção que nos resta é esperar pelo chamado divino. E assim foi, minha filha! A mulher morreu e três meses depois, nós já estávamos juntos. Ele mora aqui, por conta da família; filhos e netos... E vai me ver duas vezes ao ano. Eu moro lá, também por conta da minha família, e venho aqui também duas vezes ao ano. Intercalamos as visitas e nos vemos à cada três meses. E tem sido os dias mais felizes da minha vida! A essa altura, eu com setenta e nove e ele com oitenta e dois, não temos mais 'relação de cama', agora vivemos o amor puro, como era no nosso tempo. Com a experiência da maturidade, mas com o sentimento que se estendeu durante toda uma vida! -- você tem namorado?" -- "Não senhora!" -- "Mas, já teve?" -- "Sim, já tive!" -- "Gostava dele?" -- "Sim, muito! Ainda nos gostamos, mas a vida e as circunstâncias nos distanciaram" -- "Pois, minha filha, seja lá o que tenha acontecido, se vocês se amam e essa história for da vontade de Deus, saiba que, passe o tempo que passar, aconteça o que acontecer, de bom, de ruim... Nem que seja no fim da vida, vocês vão se encontrar!" -- Sorri, porque parecia que aquela senhora tinha ouvido minha oração da noite passada, quando pedi a Deus tantas respostas. 

A gente seguiu conversando e eu passei a admirar aquela mulher, que nunca tinha visto na vida, mas que de alguma forma me tocou com a sua história. E eu entendi que a vontade de Deus, tem dia certo para acontecer, que não depende da nossa ansiedade, mas, do quanto de amor precisamos experimentar. Porque, ele também se faz diante a paciência.

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