TRILHA SONORA

domingo, 5 de fevereiro de 2017

PRESENTE DE ANIVERSÁRIO



Gostava de vinho, mas pouco bebia. A labirintite herdada da mãe, não permitia que Sophia fosse além de duas taças. Mas aquela noite exigia que ficasse bêbada! Afinal, não é todo dia que se completa dezoito anos.
Sophia estava em São Paulo desde os treze, quando foi estudar balé no municipal. Era a melhor no que fazia e já cotavam-na para primeira bailarina. Morou com a tia paterna até os dezessete e quis a “independência” desde que tornou-se professora particular e pode sustentar-se. Dividia o apartamento de três cômodos com Ana, que além de amiga do colegial estudava e lecionava música na mesma escola.
Não era o primeiro aniversário que passava longe dos pais, mas aquele trazia mais saudade que os outros. Era a metamorfose da menina doce e ingênua que saiu do interior para tentar a vida na cidade à mulher que se tornara; decidida, forte e corajosa.

_O cardápio da noite faz juz à data. – murmurou Ana, com ar de deboche, enquanto enrolava o macarrão instantâneo no garfo. – você merece mais que isso, Amiga! Venha... Vamos comer uma pizza. – e puxou Sophia pelo braço em direção a rua. 

_Não quero! Já tomei três taças de vinho. Se eu ficar tonta no meio da rua amanhã não vou poder dar aula. Já é de estranhar uma bailarina com crise de labirintite, imagine de ressaca.

_Deixa de besteira! Você merece, e hoje podemos tudo! Se você cair eu te seguro.

E seguiram pela longa avenida que dá de encontro a São João. A noite parecia divertida naquele início de Dezembro. Algumas luzes já piscavam nas sacadas dos prédios anunciando o Natal, que para Sophia, sempre trazia um pouco de recomeço. 
O riso, a alegria, a liberdade que a idade trazia... Contagiava quem visse aquelas duas andando pelas ruas com a última garrafa de vinho à mão na volta pra casa.

_Acho que já estamos bêbadas! – disse Sophia.

_Acho que sim. Já estou vendo o mundo escurecer... – respondeu Ana segurando o braço da amiga enquanto colocava a chave na porta e forçava para abri-la. 

_Faltou energia!!! – disse o vulto que passara no corredor – Era Gabriel, o vizinho do andar de cima, que gentilmente abriu a porta e sumiu na escuridão.

_Estou morta! Mas, a noite não pode acabar assim... – Senta aí que eu vou tocar uma música pra você... – dizia Ana enquanto empurrava Sophia contra o sofá vermelho carmim e trazia para os ombros o violino que estava a empoeirar na prateleira de cima da estante. Afinou-o e tocou como há muito já não fazia.

A música embalava as duas... Que por certo já não se distinguiam no breu.
A vela acesa numa mesinha qualquer de cabeceira revelava apenas sombras... De bocas que chegavam-se mais perto, de mãos que agora deixavam de tocar o violino ou qualquer coisa, para enfim, tocarem-se.
O som parou, de repente. Porque a melodia já se fazia outra, onde o instrumento era o próprio corpo.
Ana começou devagar. Desfazer as tranças da menina na noite de núpcias, era um ato tão sagrado quanto beijar-lhe a testa durante a cerimônia de preparação, então, Ana apagou as velas e abriu as cortinas, para que a Lua, e, apenas a Lua, testemunhasse o que estava por vir – ajoelhou-se e trouxe-a pra perto.

_Você quer? – sussurrou no ouvido da Amada nunca revelada.
_Mais que a minha própria vida!

Afastou, então os botões da blusa já amassada e tocou os seios com a ponta dos dedos – estavam firmes. Olhou-os com o desejo e a sutileza de quem toca Chopim. Percorreu todo o corpo com a ponta da língua, sentindo seu cheiro e seu gosto que misturavam-se em intervalos longos e ofegantes de gritos roucos. 
Num golpe ingênuo e inconstante deu-lhe o céu – e o badalar dos sinos e o grito dos anjos, enquanto o relógio tocava meia noite.
Voltou-se pra trás e fechou os olhos, desmanchando o restante do penteado, agora, sem importância. No entanto, era como ter a presença da Ninfa e da Deusa, da cisnes e da fênix, diante seus olhos, já não mais emersos no corpo de Sophia, mas na beleza angelical da face, tão nua, branca e latejante quanto o resto do corpo.

    
Helena Cardoso



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