TRILHA SONORA

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

DOIS CAFÉS, POR FAVOR.



Era vermelho carmim o batom que Marina usava para esconder a bolha no lábio inferior feita com café quente – não podia perder a formatura da irmã mais velha por bobagem. Devia estar atenta a cada detalhe para que na sua vez tudo saísse perfeito!

Marina era estudante do ensino médio, ainda. 15 anos de idade, adora os números e calculava como ninguém, mas dizia querer ser médica para seguir os passos do Pai. Sonho que posteriormente seria abortado pelas ciências jurídicas, mas essa é outra parte da história que não nos convém contar. 

A bolha incomodava o bater dos lábios, então os esticava um pouco para frente – técnica que os deixavam maiores que o normal àquela altura da madrugada e isso chamava ainda mais a atenção dos homens da festa que anteriormente concentravam-se na silhueta apertada no vestido azul marinho. A cor era proposital, para realçar os olhos. E o penteado preso um pouco acima da orelha esquerda, alongava o pescoço nu e branco.

Era quase uma menina, mas o comportamento sedutor de mulher acima dos trinta atraía Ricardo cada vez mais. – Ricardo era advogado de meia idade, solteiro e descompromissado com a vida. Colecionador de desilusões amorosas e corações despedaçados. Via em cada paixão uma caça e um troféu a por na estante da sala – a mesma que guardara os títulos de honra profissional. Era irmão de uma das formandas e tinha a missão de conduzi-la na valsa; o que facilitou a troca de olhares e a correspondência de gestos com Marina, que olhava atenta – agora, não mais a irmã, mas o Professor de quem a mais velha fazia confissões durante as madrugadas em claro.

Após as formalidades e finalmente na liberdade da socialização, apresentaram-se. 

_Três beijinhos que é pra casar! – dizia Ricardo enquanto aproximava o rosto da nova conquista. – o último, passando ainda mais perto da boca.

Marina riu. Achava divertido a maneira que conseguia tudo a seu modo, ainda que aparentemente se fizesse ingênua. 

_Quer uma bebida?

_Não posso! A idade só permite que eu tome café... E às vezes refrigerante. – o que ironicamente ela tinha razão, mas Ricardo entendeu como piada e sorriu de canto de boca.

A conversa seguiu e depois foi além das palavras; o bastante para fazer sangrar o lábio ferido. 

_Tenho de ir. Se meus pais notarem minha falta, vou ser uma menina morta amanhã. Ainda mais se alguém me ver aqui com você.

_Quero seu telefone... Quero te ver de novo.

_Minha irmã é amiga da sua irmã. Talvez a gente se encontre outras vezes. – dizia limpando a boca e retocando o batom que agora evoluía o tom de vermelho para sangue.

Os dias subsequentes e o Pai da moça cuidaram para que a ferida fosse curada e dali em diante não houveram outros encontros como jurados naquela noite. 

Os anos passaram depressa para a menina que tornou-se mulher mais cedo do que ela própria esperava. E como convém a todos os mortais, apaixonou-se e sofreu grandes ilusões. Namorou sem compromisso, namorou sério; foi amada e não amou, amou e foi correspondida. Cada coisa em seu tempo e idade. Mas, sem esquecer o principal objetivo de adolescência.

Entrou para a faculdade, estudou muito, tornou-se notada, tanto quanto a beleza singular que tinha de nascença. Já quase no último período reencontrou Ricardo; agora professor das disciplinas finais.

Tinham mudado pouco durante seis anos, o que permitiu o reconhecimento de ambos e a aproximação fissurada pelas circunstâncias.

_Ainda tomando café? – questionou Ricardo com ar de graça.

_Depende da ocasião. – respondeu Marina, que agora, além do café tomava vinho, vodca e uísque, puro e sem gelo.

_Então, podemos terminar a conversa de seis anos atrás e finalmente tomar alguma coisa?

_Claro! – e seguiram caminhando pelo Campus.

Falaram de tudo aquele dia, menos do que viria a seguir. Deixaram que o mesmo tempo que os reaproximou cuidasse do futuro; embora tudo, fizesse parte de um plano de conquista abortado por longos anos.

Ricardo nunca conversou com outra mulher por mais de duas horas sem leva-la pra cama. O que era terrível no seu conceito de sedução. Mas, sentia que Marina era diferente das outras também. Por isso, tratou de se tornar o maior “pagador” de cafés de toda a universidade.

Encontravam-se muitas vezes durante o dia e depois à noite. O plano seguia um ritual lento e quase sem fim como aquela história mal resolvida começada há seis anos, até que marcaram na casa de Ricardo naquela tarde.

Sem muitos rodeios, fizeram amor. Tinham esperado muito tempo disfarçando as mãos trêmulas e os corações acelerados. Não disseram muito; porque o que havia de ser dito, já fora por todo o período que antecedeu aquele. O resto era mantido em segredo, porque há coisas que jamais devem ser reveladas quando se está apaixonado.

O tempo que parecia parado exigia silêncio compartilhado.

Outras tarde vieram, outros cafés, outras taças de vinho... O inverno parecia mais frio aquele ano e intimava-os ao aconchego – ao passo que o tempo passava e os encontros aconteciam, menos conversa se tinha, mais segredo se mantinha.

O sexo mecanizado rotulava aquele início de relação que talvez, se convertesse em vício; já não mais de cafeína.

O período universitário acabou. A formatura aconteceu como sonhada... E Marina sumiu, da mesma maneira que aparecera outro dia.

Ricardo não sabia quase nada sobre a moça. O telefone, antes atendido de imediato, agora respondia que estava fora de área. As redes sociais foram deletadas. Parecia até que Marina nunca tivesse existido se não apenas em seus sonhos. 

Achou que estava ficando louco e por certo ficou. Já não fazia mais a barba, nem dormia com os olhos grudados no computador que tinha meia dúzia de fotos dos dois. Procurava pistas que desvendasse o mistério e nunca as encontrou.

Seis meses depois de muita espera e sem esperança de reencontro, foi voltando a normalidade diária. Hoje fez café, passou a roupa mais nova que tinha no guarda-roupa, perfumou-se e saiu sem rumo específico. 

Balançou os bolsos da calça e viu que tinha algum dinheiro – quis ir ao shopping. Queria ver gente, queria tomar cappuccino de propaganda de café.

Por ironia do destino encontrou Marina na fila do cinema, ali perto. Estava acompanhada... Apresentou-o como amigo de adolescência ao homem barbudo de óculos arredondados. Que notando a testa franzida de Ricardo sem entender direito o que se passara; tratou de apertar ainda mais forte a mão da mulher, mostrando a aliança de quase cinco milímetros de espessura, colocada sobre a barriga, já notada de sabe lá quantos meses de gravidez. 

_Marina, podemos falar em particular um instante? – disse Ricardo.

_Sim, claro! – fez sinal para o marido que não havia com o que se preocupar e afastou-se um pouco. – Seja rápido, por favor, não quero que meu marido note que há alguma coisa entre nós além do que eu disse a ele.

_Você sumiu. Você me seduziu e simplesmente sumiu. Eu me apaixonei por você como nunca fui capaz de amar outra mulher e você simplesmente sumiu. E essa barriga? Você já era casada enquanto estivemos juntos? Esse filho é meu? 

Marina olhou-o devagar dos pés a cabeça, mordeu os lábios, parou os olhos por pouco mais de três segundos fixados no nada e foi breve antes de entrar na sala do filme:

_Não tente questionar quando a resposta está diante seus olhos... Apenas aprenda daqui em diante que quem se queima com café uma vez, nunca mais esquece de assoprar.

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