TRILHA SONORA

sábado, 4 de outubro de 2014

SOBRE O VOO DA GARÇA


“Se Deus lhe desse a chance de prevê o futuro e assim, você soubesse quanto tempo de vida restaria à quem você mais ama... O que faria?!” Recebi esta pergunta e passei muito tempo olhando pra ela tentando encontrar uma resposta... De certo, se algum de nós pudesse saber quanto tempo ainda temos pela frente ou quanto tempo ainda há para quem amamos... Faríamos tudo que tivemos vontade, mas que por alguma razão estúpida deixamos pra trás. 


Se ainda restasse uma chance, eu certamente diria “Te Amo” mais vezes, e com mais verdade, também. Eu correria na chuva e gritaria do alto de uma ponte o quanto eu estava feliz por ter alguém tão especial do meu lado.

Eu não dormiria, porque mesmo estando cansada de mais um dia de trabalho, não iria perder nem mais um minuto longe de quem eu gosto; aliás, eu nem iria trabalhar! E contemplaria seus olhos no horizonte. Eu velaria seu sono e acordaria com beijos e café na cama.

Ah! Se eu soubesse que não haveria tempo suficiente pro “pra sempre”, eu veria o pôr do sol nas águas, tomaria banho de mar e viajaria por aí, sem rumo e sem hora pra voltar.

Nós iriamos fazer todas as coisas que há na minha lista de cem coisas que se deve fazer antes de morrer – e nadaríamos nus e plantaríamos árvores. Escreveríamos um livro e talvez adotássemos um filho.

Se eu soubesse quanto tempo te resta, meu Bem... Eu ligaria agora ou sairia correndo pros seus braços – eu pularia o muro pra te arrancar da prisão que seu tornou sua casa... Eu gritaria na rua que não posso mais viver sem você; talvez eu tomasse um porre ou dormisse no portão da frente até você resolver me receber no seu apartamento.

Oh! Eu te daria tanto Amor que você lembraria de mim pelas milhares de vidas que estão por vir. Eu levaria flores no seu trabalho e vinho pra sua casa.

Eu jogaria fora os óculos, andaria descalça e fumaria seus cigarros.

Se eu soubesse que não teria muito tempo eu olharia a Lua todas as noites e contaria estrelas – eu até te daria uma delas com seu nome. Nós veríamos todos os entardeceres sentados na varanda e saudaríamos o despertar do sol com uma caneca de café na mão direita... Até que não mais existissem Sol nem Lua, nem estrelas e nem cafés.

Mas, acontece... Que por não saber quanto tempo ainda tenho para amar você é que eu deixei todas essas coisas escaparem pelas mãos – eu deixei você ir embora sem dizer “adeus”. Eu te beijei a testa quando o que eu queria era beijar-lhe a boca e não chorei por nada disso... Porque achei que tudo era bobagem, mas eu tenho contado os dias – e cada um deles parece mais longo agora.

Então, alguém me pergunta o que eu faria se soubesse que amanhã, ou semana que vem, ou daqui dois anos... você não estivesse mais aqui?! E a única coisa que eu penso é na razão para tanta vontade abortada pela nossa covardia.

Eu penso que essa frase mais muito mais além da morte – porque dela eu não tenho medo – mas se um dia qualquer você resolve casar, ou eu viajo pro Japão – ou algum de nós vai servir ao exército... E se nos esquecermos?!

Nem faz tanto tempo assim e eu nem lembro mais da sua voz... Olho pro espelho e nem consigo imaginar a maneira engraçada com que penteava os cabelos... Eu só vejo os meus, agora, mesclados de branco.

Olho o quarto e sinto sua falta nele, mas nem consigo lembrar o formato do seu rosto... Parece que aquela imagem de conto de fadas começa a desaparecer. E eu não queria que você morresse. 

Porque a pior das mortes é essa – quando aos pouquinhos o tempo vai te sufocando dentro do peito de alguém até que sem mais nem menos você desapareça da mesma maneira que apareceu dentro dele – sem razão, sem porquês, sem neuras. 

Mas depois, penso no seu sorriso e fico em Paz, porque é nela que tudo começa e tem fim.