TRILHA SONORA

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A MALA DO CORAÇÃO


Tantas vezes eu quis me desfazer
Das angustias que eu coloquei no peito
Por orgulho, inveja ou por despeito
Tantas vezes vi o sonho padecer
Mas, se eu pudesse refazer
Todo sonho mergulhado em ilusão
Certamente revivia a paixão
E essa historia de amor continuava
Eu na mala da vida carregava
O que tinha pra dar no coração

HELENA'S



Foi de Paris, de Gonzaga e de Bandeira
Três amores que o destino entrelaçou
Três paixões que a vida culminou
Em fiéis pela sina derradeira
Em Atenas, Exu ou Mangabeira
Cada uma teve a vida resultada
Numa guerra, na família e na toada
Do amor, da sanfona e do repente
Vendo isso, quem sabe um dia a gente
Também deixa nossa história registrada?!

Fostes tu, oh meu Rei, tão humilhado
Sacrifício rendestes por nós dois
Destronado, também, morto depois
Pelo amor, fostes sempre vitimado
Se pudesse refazer nosso passado
Trocaria de lado a ampulheta
Morreria qual Romeu e Julieta
Demonstrando também fidelidade
Mas, quem sabe além da eternidade
Entre nós, outro alguém nunca se meta?!

Foi a guerra de Tróia afamada
Pela luta de amor, guerra e vingança
Sacrifício, paixão e esperança
De uma história por todos aclamada
Não existe paixão mais coroada
Nem torcida maior pelos amantes
Até penso na Poesia de Cevantes
Para então, descrever Formosa cena
Posso não ser de Paris, tal Helena
Mas, por ti faço guerra como antes.

Carruagem de ouro envelhecida
Com brilhantes da cor dos olhos teus
Era assim, a maçã dada por Zeus
Que tornou uma briga conhecida
Pelo pomo de ouro, envaidecida
Afrodite promoveu guerra em Atenas
Fez-se assim, maior luta das terrenas
Deu a Paris de presente o seu amor
Só que a guerra também findou em dor
Que é destino de todas as Helenas.

A VONTADE DIVINA


Se a tristeza o pensamento te invade
Não há nada que o riso não liberte
Não há mal que com Paz não se inverte
Nem tem sombra que se fuja à claridade
Com mentira não se vence a verdade
Nem malfeito que não seja descoberto
Pode até ser o mister mais esperto
Mas, ninguém vai fugir do seu destino
Não se muda a vontade do Divino
Nem apaga o que Deus escreve certo.

MÁSCARAS


O diabo cita até a escritura
Quando quer enganar a sua presa
Lhe agrada e lhe pega com destreza
Se consegue, a coisa muda de figura
Não existe uma alma sendo pura
Que odeia outro ser sendo vivente
Se fazendo melhor que toda a gente
Se Deus sabe cada um do seu valor
Não se mata em nome do amor
Nem tão pouco se condena um inocente.

ALICE



Alice, hoje, casou-se
Com o antigo namorado
Enterrou o nosso amor
Que há tempos tinha matado
Sepultando a esperança
Que um dia tinha me dado.

Alice, que por orgulho
Rasgou os nossos retratos
Que desfez as nossas juras
Por intrigas e boatos
Terminou dando de ombros
Não ouviu meus contra fatos.

Alice, que tanto amei
Que também fez suas juras
Alice, dos meus encantos
E também das desventuras
Alice, dos meus amores
Alice das aventuras.

Menina dos olhos verdes
Do cabelo cor de trigo
Alice, dos meus afagos
Alice do meu abrigo
Alice foi salvação
Alice, foi meu perigo.

Alice que eu conheci
Alice que eu desejei
Alice que o coração
Eu também lhe entreguei
Alice também morreu
Alice, te sufoquei!

Helena Cardoso

LEILÃO


Vou jurar para a igreja celibato
Vou mudar de cabelo e de perfume
Vou despir-me da couraça do ciúme
E por fim, vou rasgar o teu retrato
E se nada mudar com esse ato
Vou rezar para o Santo em devoção
Tem que haver de algum modo, solução
Pra esquecer de uma vez o que eu preciso
Faço até um transplante de juízo
Ou então, vou rifar meu coração!

USOCAPIÃO


Seus olhos azul turquesa
Tem me mandado recado
Dizendo que tá errado
Matar paixão com tristeza
Com pose de realeza
Você ignora a dor
Alimenta o rancor
Mas, o peito tá negando
A saudade tá cobrando
Usocapião do amor.

Da alma, olho é janela
Não adianta negar
Você pode disfarçar
Mas, nunca mentir pra ela
Eu já vi através dela
Que seu corpo em fervor
Já tem procurado expor
E a raiva, tá disfarçando
A saudade tá cobrando
Usocapião do amor.

ANA MARIA


Eita, Ana, que saudade!
Me bateu olhando a lua
Saudade do teu sorriso
Da tua pele branca e nua
Saudade, meu Deus, saudade
Saudade que continua...


Aonde anda você
Que toda noite me abraça
Que passa o dia em minha mente
As vezes me embaraça
Que enganou por tanto tempo
Me fazendo de palhaça

Você que traiu meus planos
Pisonhou no meu carinho
Você menina e amante
Que cruzou o meu caminho
Me envolveu com seus beijos
Depois me deixou sozinho

A você formosa dama
Que nunca soube o que quis
Mas que por tantas vezes
Me amou, me fez feliz
Perdoe o que se passou
Que a gente já pagou
Até mesmo o que não quis.

Desarme o peito e a alma
Viva o que diz e que prega
Desça do salto e confesse
Que a paixão também é cega
E o peso dessa cruz
Só sabe quem a carrega.

Não quero lhe subornar
Exibindo a minha dor
Mas vou dizer que a cama
Tá faltando teu calor
E num frio danado desse
Tá faltando teu amor.

Sinto falta do teu cheiro
E da nossa oração
Das nossas brigas de amor
Da reconciliação
Saudade das tantas juras
Que eu gritei ao teu portão.

Aninha, minha francesa
O que foi que aconteceu?
Tanta gente, tanta briga
Será mesmo que morreu
Aquele amor tão grande
Como foi que padeceu?

Se o amor se acabou
Talvez nunca tenha sido
Você diz se arrepender
De até ter-me conhecido
E eu só agradeço a Deus
De um dia ter te tido.

Agradeço nesta vida
Um dia ter te encontrado
Ter sido feliz e até
Mesmo sendo maltratado
Ter te dado o meu amor
Com o peito dilacerado.

Aninha, o céu não erra
Para Deus nada é em vão
Não existe quem dê jeito
As coisas do coração
Que Deus junta quem quiser
Mesmo que se queira ou não

Aninha, se tu duvidas
Do quanto já te amei
Bote o peso na balança
Do quanto te perdoei
Depois se lembre das vezes
Que por ti me declarei

Enfrentei o mundo todo
Tanto tempo te esperei
Aninha, Quem foi que disse
Que te esquecer eu não tentei?
E ainda que a gente não volte
Inda assim eu te amarei.
Helena Cardoso

sexta-feira, 5 de maio de 2017

DIÁRIO DE BORDO


Eu sou o tipo de pessoa que sai puxando conversa com quem senta do lado no avião, a fim de amenizar a tensão pelo medo de altura, e a conversa de hoje merece ser registrada aqui, porque me trouxe uma grande lição de vida.

Chamava-se Aparecida, a senhora que viajou do meu lado por pouco mais de uma hora e meia. 

Acho, que dona Aparecida, assim como eu, também fica ansiosa nas viagens, porque foi ela que começou a falar: "Você mora aqui? (referindo-se à Campina Grande)". Respondi que sim e ela continuou -- "eu estou indo para casa, vim visitar meu namorado." -- arregalei os olhos, mas não questionei. E ela completou -- "Tenho setenta e nove anos. Fui casada por quarenta e fiquei viúva há três! Antônio, meu namorado, também, foi casado quase quarenta anos, e ficou viúvo há dois. Nós namoramos na adolescência... Na nossa época, não era como hoje, que você começa a namorar agora e no outro dia já está morando junto com a pessoa. Na minha época era diferente. Nós só pegávamos na mão e olhe lá. Antônio foi meu primeiro namorado, meu primeiro amor e único, até hoje. A vida se encarregou de nos separar por mais de quarenta anos. Depois que casei e ele também casou, nunca mais tínhamos nos visto. Quando fiquei viúva e ele soube, sua esposa também já estava à beira da morte, ele me visitou, um dia. E disse que a doença dela não tinha cura, estava definhando, morrendo... Que tinha feito um juramento e cuidaria dela até a morte, mas que depois que ela partisse, gostaria de viver comigo o amor que deixamos pra trás. Que agora, no fim, tinha se dado conta do quanto a vida passa rápido e a gente só reconhece o que perdeu, quando a única opção que nos resta é esperar pelo chamado divino. E assim foi, minha filha! A mulher morreu e três meses depois, nós já estávamos juntos. Ele mora aqui, por conta da família; filhos e netos... E vai me ver duas vezes ao ano. Eu moro lá, também por conta da minha família, e venho aqui também duas vezes ao ano. Intercalamos as visitas e nos vemos à cada três meses. E tem sido os dias mais felizes da minha vida! A essa altura, eu com setenta e nove e ele com oitenta e dois, não temos mais 'relação de cama', agora vivemos o amor puro, como era no nosso tempo. Com a experiência da maturidade, mas com o sentimento que se estendeu durante toda uma vida! -- você tem namorado?" -- "Não senhora!" -- "Mas, já teve?" -- "Sim, já tive!" -- "Gostava dele?" -- "Sim, muito! Ainda nos gostamos, mas a vida e as circunstâncias nos distanciaram" -- "Pois, minha filha, seja lá o que tenha acontecido, se vocês se amam e essa história for da vontade de Deus, saiba que, passe o tempo que passar, aconteça o que acontecer, de bom, de ruim... Nem que seja no fim da vida, vocês vão se encontrar!" -- Sorri, porque parecia que aquela senhora tinha ouvido minha oração da noite passada, quando pedi a Deus tantas respostas. 

A gente seguiu conversando e eu passei a admirar aquela mulher, que nunca tinha visto na vida, mas que de alguma forma me tocou com a sua história. E eu entendi que a vontade de Deus, tem dia certo para acontecer, que não depende da nossa ansiedade, mas, do quanto de amor precisamos experimentar. Porque, ele também se faz diante a paciência.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

SE EXPLICA?


Se eu me lembro quase tudo da outra vida
E eu já sei que ao teu lado é minha sina
Se nas minhas lembranças de menina
Tua voz que embalava a minha lida
O teu cheiro vem, me deixa envolvida
E até posso sentir-te em pensamento
Se eu fecho meus olhos num momento
Tu imagem, se quiser posso tocar
Como explica essa forma de amar
Se não é do amor, merecimento?!

DUAS DOSES DE SAUDADE



Primeira desceu ardendo
A segunda eu nem senti
A terceira eu já não vi
A quarta bebi valendo
Depois fui me esquecendo
Que tu tinhas me deixado
Só deixei pra ser lembrado
A nossa felicidade
Duas doses de saudade
Deixam a gente embriagado

TIM-TIM



Não tem outra solução
Se ela não voltar pra mim
Traga outra dose de gim
Pra afogar minha ilusão
Aproveite o coração
Que já tá bem mutilado
Sirva bem acebolado
Pelos bares da cidade
Duas doses de saudade
Deixam a gente embriagado.

Helena Cardoso

IMPULSOS



Quando penso que esqueci, já não tem jeito
A imagem vem e invade o pensamento
E eu acabo quebrando o juramento
De arrancá-la de vez desse meu peito
Aceitar que perdi, até aceito
Mas, duvido amar outra igual a ela
O meu peito se tornou escravo dela
Não adianta fugir da realidade,
Quando sinto os impulsos da saudade
Faço um verso de amor pensando nela.


Helena Cardoso

terça-feira, 2 de maio de 2017

TEU RISO



Das certezas que eu já tive nesta vida,
O teu riso é o que eu guardo na lembrança
É só ele que mantém a esperança
E me cura quando o peito faz ferida
Se acaso tu sorri, despercebida
Esse riso é o que dá o arremato
Em meu peito, vem e dá o ultimato
Me dizendo pra matar toda a saudade
Se eu pudesse definir Felicidade
Com certeza o teu riso era o retrato!

quinta-feira, 27 de abril de 2017

SOBRE A CIGANIA


Dos amores que passaram em meu caminho
Só o teu permanece inalterado
Pois deixou no meu peito demarcado
Que ninguém pode ser feliz sozinho
Hoje eu sou viciada em teu carinho
E acabei de uma vez com a cigania
Inerente aos que vivem de poesia
Entreguei-te o coração numa bandeja
E agora o anseio que ele almeja
Tem o nome gravado, Ana Maria.

AMOR E GRIPE


sexta-feira, 21 de abril de 2017

SOBRE A PASSAGEM DAS COISAS


Eu nunca fui a melhor aluna da sala, embora, tenha me esforçado muito para isso! Porque ser inteligente nem sempre te dá o mérito do título. 

Eu nunca fui a filha mais querida, embora, de alguma maneira me esforçava para sê-la. Mas, Shakespeare diz que beijos não são contratos, nem presentes são promessas.

Talvez eu nunca tenha sido o grande amor da vida de alguém, embora tenha sido fiel aos meus sentimentos e princípios. 

Eu nunca fui simpatizada pela maioria, minha seriedade diante das piadas sem graça, meu jeito sincero de dizer “não gosto disso” ou “isso não cai bem em você”, me distanciou do mundo de aparências que as pessoas se acostumaram a ter como base.

Meu estereótipo nunca me fez uma alguém popular. 

Gosto de falar sobre comida, sobre política, sobre crise mundial, sobre a origem da vida, sobre sentires... E as pessoas andam tão desmotivadas com tudo isso que nada me torna alguém interessante.

Passei a maior parte da vida tentando agradar as pessoas e me moldar às fases de acordo com o que cada amigo, cada parente ou cada relacionamento exigia e me tornei, algumas vezes, aquilo que eu mesma detestava.

Desisti de muitos sonhos, adiei outros. Cancelei viagens, engoli choros, sorri por falta de opção, desfiz amizades de longas datas (mas, amizade se desfaz?). Vi os dias passarem sem sair do lugar. Cometi erros – tantos. Mas, também acertei muita coisa.

Hoje, uma frase se torna lema para o resto dos meus dias “tudo isso também passa”. Assim, eu lembro que todas as amarguras se vão, assim como a alegria não dura para sempre, os momentos de dor também não são eternos.

As pessoas passam...

Isso é o mais difícil de absorver. Mas, quando se consegue entender que o mistério da vida não consiste em perdoar o outro, mas você mesmo em detrimento da parcela que levou o outro a cometer o erro – se consegue Paz. A Paz está no amor e no perdão.

A Paz está na esperança de que tudo é passageiro e estamos aqui, também de passagem.

Gastamos muito tempo “atolando” o coração no rancor, no medo (de perdoar, inclusive. Isso para alguns é uma humilhação). Vomitamos tanta passagem bíblica, clamamos pela misericórdia divina... E nos esquecemos de que Jesus se fez carne para ser xingado, cuspido, julgado, traído, crucificado... E, no entanto deixou-nos a maior lição: ”Amai-vos!” – muitos falam de amor e quase ninguém o vivencia, por que será? 

O motivo pelo qual as pessoas ainda vivem depressivas, angustiadas e vazias está em compreender que só o Amor cura, liberta e traz a Paz. O Amor não está nos tantos “Eu te amo” distribuídos por aí – Amor é tão divino e tão complexo que não se explica; ele simplesmente não passa!

SE ACASO VOCÊ VIR


RECADO


SOBRE A MANEIRA DE AMAR


Aprendi que quem ama de verdade
Não humilha nem tão pouco se expõe
Acho até que as vezes se opõe
A gozar sua própria liberdade
Em razão do amado e da vontade
De fazer volta-lo a sorrir
Só quem ama é capaz de redimir
Para ver outro ser sendo feliz
Mas quem faz tudo isso, nunca diz
Que quem ama não precisa se exibir!

Helena Cardoso

BOA SORTE, ADEUS E NUNCA MAIS


Você não reconhece o traidor
E me acusa de desonestidade
É difícil acreditar que na verdade
Você mesma provocou a sua dor
Só que o peito prefere o rancor
Em dizer que eu tirava a sua Paz
Mas esquece que também já fui seu cais
Fui amante e também fui sua dama
E é difícil dizer a quem se ama
Boa sorte, adeus e nunca mais.

Você pode rasgar os meu retratos
Pra tentar se enganar que me esqueceu
Você pode dizer que o Amor morreu
Que eu fui responsável por seus atos
Só não pode mudar os contra fatos
E as cenas de amor que são reais
Não adianta fugir, que a vida traz
E te joga de novo em minha cama
E é difícil dizer a quem se ama
Boa sorte, adeus e nunca mais.

Dessa vez não bati no seu portão
Nem gritei pelas ruas da cidade
Sufoquei minhas dores de saudade
Nas lembranças sobradas da paixão
E o anel que ficava em minha mão
Quis tirar, mas também não fui capaz
Que o tanto que sofri já tá demais
Só nos falta concluir o fim da trama
Que é difícil dizer a quem se ama
Boa sorte, adeus e nunca mais.



Me esquivei de chorar na despedida
Que esse pranto é coisa pra amador
Tantas vezes já cravamos essa dor
E a saudade deixamos embebida
Em cachaça e uísque sem medida
Com a desculpa de que se queria paz
Que no fim do teatro somos iguais
E as brigas terminam numa cama
Que é difícil dizer a quem se ama
Boa sorte, adeus e nunca mais!


Já tem gente fazendo até aposta
Que essa briga da gente não perdura
Não sabendo que você, cabeça dura
Tá me dando o silêncio por resposta
Todo mundo sabe que a gente se gosta
Não precisa estampar pelos jornais
Conhecendo esse amor “de carnavais”
Nós sabemos como acaba o fim do drama
Que é difícil dizer a quem se ama
Boa sorte, adeus e nunca mais!

Helena Cardoso

SOBRE O PERDÃO QUE EU DEI


Das dezenas maneiras de amar
Eu prefiro essa minha incompreendida
Quantas vezes por você sendo traída
Fui capaz de também te perdoar
No entanto, pra poder justificar
Os seus erros você aponta o meu
Que foi único, mas você não entendeu
E me pôs numa cruz sendo imolada
Não importa, você já tá perdoada
E meu amor continua sendo teu!

Helena Cardoso

NÃO IMPORTA


Não importa quem errou e foi errante
Que pra Deus interessa é quem perdoa
Se os caminhos se cruzam não é a toa
Só Deus sabe o que vem mais adiante
Não existe macumba ou cartomante
Que é capaz de traçar nosso destino
Nossa sina é traçada no ulterino
Nada quebra o que Deus um dia enlaça
Não importa o feitiço que se faça
Nada impede a vontade do Divino!


Helena Cardoso

SOBRE O QUE NÃO SE PODE MENTIR


Pra família você faz todo o cinema
E confirma que no amor já pois um fim
Só que a noite se embriaga em meio ao jim
E já bota a perder todo o esquema
Pra amiga vai dar um telefonema
E acaba confessando a amargura
Diz que a noite sem mim tá mais escura
E a rede tá sobrando o meu lugar
Só que o orgulho não lhe deixa perdoar
Nem tão pouco se despir da armadura.

Confessando que me amou em demasia
Esqueceu-se também de perguntar
Quem estava noutra linha a escutar
Os soluços do seu pranto em maestria
Era eu que ao chorar também dizia
Não se esqueça de quem causou o drama
Não se mente nem também leva pra cama
Outro alguém pra ferir o sentimento
Você pode falar do rompimento
Só não pode acusar-me pela fama.

Já notei que a revolta instaurada
Não se deu pelo fato acontecido
Se o amor tinha mesmo se rompido
E outra dama estava sendo cortejada
Para que conservar-se amargurada
E tentar achar culpa onde não tem
Se você ama mesmo outro alguém
Para que bloquear os meus contatos?
Você tenta fugir dos contra fatos
Só que já não engana mais ninguém.

Você pode ter rasgado meus retratos
Na esperança de fingir outra paixão
Só que a noite, deitada em seu colchão
Você lembra de todos os nossos atos
Você nega e renega os boatos
Que a saudade entre a gente é desmedida
Você grita e se faz de ressentida
Se alguém lhe chamar de quase louca
Mas não pode desbeijar a minha boca
Nem negar o amor da despedida!

(Helena Cardoso)

SOBRE BEIJO


Do encontro e do cenário
Eu me lembro com clareza
Do coração pela boca
Batendo forte em destreza
Dos olhos e riso teu
A primeira vez que eu
Te beijei sem ter certeza.

O primeiro e o derradeiro
A gente jamais esquece
As tantas juras de amor
Que os beijos fazem em prece
Os que ficam incontidos
Os roubados, escondidos
E os que a gente não merece...

Se eu pudesse calcular
Quantos beijos eu te dei
Quantos beijos tu me destes
E quantos não precisei
Porque por telepatia
A gente também fazia
O nosso amor sem lei

Beijo na face e na testa
Beijo de boca e de mão
Beijo com sabor de beijo
Beijo com café e pão
Beijo com gosto de mate
E os beijos de chocolate
Que me destes com paixão

Beijo antes de dormir
E beijos abençoados
Nossos beijos de bom dia
E beijos bem demorados
Beijos com sabor de mel
Beijos com gosto de fel
E beijos apaixonados

Lembro-me todos os beijos
Dos carinhos, das ternuras
Das bocas que se encaixavam
No clarão ou nas escuras
Da forma de nos unir
Até na hora de dormir
Diante das desventuras

De tantas bocas que eu tive
De tantas que fui beijada
Só a tua, oh meu bem!
Deixaram-me viciada
Se eu pudesse escolheria
A forma que padecia
Era em teus lábios colada.

Helena Cardoso

SOBRE O SÍTIO


Das marcas da minha infância
Restou somente a esperança
Um pé de jabuticaba
Meu cabelo feito trança
E no oitão do casarão
Lembro as festas de São João
Que ficou só na lembrança!

Lembro a família reunida
Já em torno do fogão
As histórias de romance
E tantas de assombração
Que mãe contava à noitinha
E pra findar inda tinha
Pai tocando um violão.

Às vezes no mês de Maio
A novena vó rezava
E depois da reza toda
A criançada brincava
De toca e de se esconder
Enquanto iam benzer
As flores que se queimava.

Me lembro da minha mãe
Lata d'água carregando
O cheiro daquela terra
Pai uma enxada encaibrando
Meus irmãos colhendo fruta
E no caminho da luta
A gente ia arengando.

Hoje o destino nos lembra
Do quanto nos transformamos
Das escolhas que fizemos
Das durezas que encaramos
Do peso dos nossos ombros
Da coragem, dos assombros
E as pessoas que deixamos.

Quando a saudade maltrata
Venho à beira do açude
Que a roupa mãe lavava
Quando dispunha saude
Recordar o meu passado
Refletir se fiz errado
Aquilo que eu quis e pude.

Helena Cardoso

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

DOIS CAFÉS, POR FAVOR.



Era vermelho carmim o batom que Marina usava para esconder a bolha no lábio inferior feita com café quente – não podia perder a formatura da irmã mais velha por bobagem. Devia estar atenta a cada detalhe para que na sua vez tudo saísse perfeito!

Marina era estudante do ensino médio, ainda. 15 anos de idade, adora os números e calculava como ninguém, mas dizia querer ser médica para seguir os passos do Pai. Sonho que posteriormente seria abortado pelas ciências jurídicas, mas essa é outra parte da história que não nos convém contar. 

A bolha incomodava o bater dos lábios, então os esticava um pouco para frente – técnica que os deixavam maiores que o normal àquela altura da madrugada e isso chamava ainda mais a atenção dos homens da festa que anteriormente concentravam-se na silhueta apertada no vestido azul marinho. A cor era proposital, para realçar os olhos. E o penteado preso um pouco acima da orelha esquerda, alongava o pescoço nu e branco.

Era quase uma menina, mas o comportamento sedutor de mulher acima dos trinta atraía Ricardo cada vez mais. – Ricardo era advogado de meia idade, solteiro e descompromissado com a vida. Colecionador de desilusões amorosas e corações despedaçados. Via em cada paixão uma caça e um troféu a por na estante da sala – a mesma que guardara os títulos de honra profissional. Era irmão de uma das formandas e tinha a missão de conduzi-la na valsa; o que facilitou a troca de olhares e a correspondência de gestos com Marina, que olhava atenta – agora, não mais a irmã, mas o Professor de quem a mais velha fazia confissões durante as madrugadas em claro.

Após as formalidades e finalmente na liberdade da socialização, apresentaram-se. 

_Três beijinhos que é pra casar! – dizia Ricardo enquanto aproximava o rosto da nova conquista. – o último, passando ainda mais perto da boca.

Marina riu. Achava divertido a maneira que conseguia tudo a seu modo, ainda que aparentemente se fizesse ingênua. 

_Quer uma bebida?

_Não posso! A idade só permite que eu tome café... E às vezes refrigerante. – o que ironicamente ela tinha razão, mas Ricardo entendeu como piada e sorriu de canto de boca.

A conversa seguiu e depois foi além das palavras; o bastante para fazer sangrar o lábio ferido. 

_Tenho de ir. Se meus pais notarem minha falta, vou ser uma menina morta amanhã. Ainda mais se alguém me ver aqui com você.

_Quero seu telefone... Quero te ver de novo.

_Minha irmã é amiga da sua irmã. Talvez a gente se encontre outras vezes. – dizia limpando a boca e retocando o batom que agora evoluía o tom de vermelho para sangue.

Os dias subsequentes e o Pai da moça cuidaram para que a ferida fosse curada e dali em diante não houveram outros encontros como jurados naquela noite. 

Os anos passaram depressa para a menina que tornou-se mulher mais cedo do que ela própria esperava. E como convém a todos os mortais, apaixonou-se e sofreu grandes ilusões. Namorou sem compromisso, namorou sério; foi amada e não amou, amou e foi correspondida. Cada coisa em seu tempo e idade. Mas, sem esquecer o principal objetivo de adolescência.

Entrou para a faculdade, estudou muito, tornou-se notada, tanto quanto a beleza singular que tinha de nascença. Já quase no último período reencontrou Ricardo; agora professor das disciplinas finais.

Tinham mudado pouco durante seis anos, o que permitiu o reconhecimento de ambos e a aproximação fissurada pelas circunstâncias.

_Ainda tomando café? – questionou Ricardo com ar de graça.

_Depende da ocasião. – respondeu Marina, que agora, além do café tomava vinho, vodca e uísque, puro e sem gelo.

_Então, podemos terminar a conversa de seis anos atrás e finalmente tomar alguma coisa?

_Claro! – e seguiram caminhando pelo Campus.

Falaram de tudo aquele dia, menos do que viria a seguir. Deixaram que o mesmo tempo que os reaproximou cuidasse do futuro; embora tudo, fizesse parte de um plano de conquista abortado por longos anos.

Ricardo nunca conversou com outra mulher por mais de duas horas sem leva-la pra cama. O que era terrível no seu conceito de sedução. Mas, sentia que Marina era diferente das outras também. Por isso, tratou de se tornar o maior “pagador” de cafés de toda a universidade.

Encontravam-se muitas vezes durante o dia e depois à noite. O plano seguia um ritual lento e quase sem fim como aquela história mal resolvida começada há seis anos, até que marcaram na casa de Ricardo naquela tarde.

Sem muitos rodeios, fizeram amor. Tinham esperado muito tempo disfarçando as mãos trêmulas e os corações acelerados. Não disseram muito; porque o que havia de ser dito, já fora por todo o período que antecedeu aquele. O resto era mantido em segredo, porque há coisas que jamais devem ser reveladas quando se está apaixonado.

O tempo que parecia parado exigia silêncio compartilhado.

Outras tarde vieram, outros cafés, outras taças de vinho... O inverno parecia mais frio aquele ano e intimava-os ao aconchego – ao passo que o tempo passava e os encontros aconteciam, menos conversa se tinha, mais segredo se mantinha.

O sexo mecanizado rotulava aquele início de relação que talvez, se convertesse em vício; já não mais de cafeína.

O período universitário acabou. A formatura aconteceu como sonhada... E Marina sumiu, da mesma maneira que aparecera outro dia.

Ricardo não sabia quase nada sobre a moça. O telefone, antes atendido de imediato, agora respondia que estava fora de área. As redes sociais foram deletadas. Parecia até que Marina nunca tivesse existido se não apenas em seus sonhos. 

Achou que estava ficando louco e por certo ficou. Já não fazia mais a barba, nem dormia com os olhos grudados no computador que tinha meia dúzia de fotos dos dois. Procurava pistas que desvendasse o mistério e nunca as encontrou.

Seis meses depois de muita espera e sem esperança de reencontro, foi voltando a normalidade diária. Hoje fez café, passou a roupa mais nova que tinha no guarda-roupa, perfumou-se e saiu sem rumo específico. 

Balançou os bolsos da calça e viu que tinha algum dinheiro – quis ir ao shopping. Queria ver gente, queria tomar cappuccino de propaganda de café.

Por ironia do destino encontrou Marina na fila do cinema, ali perto. Estava acompanhada... Apresentou-o como amigo de adolescência ao homem barbudo de óculos arredondados. Que notando a testa franzida de Ricardo sem entender direito o que se passara; tratou de apertar ainda mais forte a mão da mulher, mostrando a aliança de quase cinco milímetros de espessura, colocada sobre a barriga, já notada de sabe lá quantos meses de gravidez. 

_Marina, podemos falar em particular um instante? – disse Ricardo.

_Sim, claro! – fez sinal para o marido que não havia com o que se preocupar e afastou-se um pouco. – Seja rápido, por favor, não quero que meu marido note que há alguma coisa entre nós além do que eu disse a ele.

_Você sumiu. Você me seduziu e simplesmente sumiu. Eu me apaixonei por você como nunca fui capaz de amar outra mulher e você simplesmente sumiu. E essa barriga? Você já era casada enquanto estivemos juntos? Esse filho é meu? 

Marina olhou-o devagar dos pés a cabeça, mordeu os lábios, parou os olhos por pouco mais de três segundos fixados no nada e foi breve antes de entrar na sala do filme:

_Não tente questionar quando a resposta está diante seus olhos... Apenas aprenda daqui em diante que quem se queima com café uma vez, nunca mais esquece de assoprar.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

SOBRE ALMAS GÊMEAS


Amas gêmeas... Elas existem? Aonde estão? Como reconhecê-las?

Essas e tantas outras perguntas nos fazemos todos os dias, mas na verdade, não há uma regra específica e você também não enxergará uma luz brilhante em cima do ombro esquerdo da pessoa ou mesmo escutará sininhos tocando em sua volta. Por favor, não insista. Não é assim que acontece. 

Eu confesso que já li muitos livros sobre almas gêmeas a fim de encontrar respostas e uma luz sobre muitas coisas que já ocorreram em minha vida. Tudo em vão. Além dos doutrinadores brigarem entre si, muitos deles acreditam que ainda não encontraram a sua própria alma gêmea, ou seja, como podem ter certeza daquilo que não viveram? Mas não deixem de ler sobre este assunto, porque eu também não deixarei. 

O fato é que todo mundo que tem alguém, deseja que este alguém seja a pessoa de sua vida. Aquela que vai praticamente morrer ao seu lado. Tô errada?

Ninguém namora sem ter a intenção de levar, no mínimo, um relacionamento estável, correto? Não estou falando de constituir família, aquela coisa de filhos e cama de casal. Estou falando de duas pessoas estarem juntas para se completarem, com todas as suas diferenças e defeitos, se ajudarem e crescerem juntos em todos os sentidos.

Quando o relacionamento acaba, estas mesmas pessoas pensam que vão morrer! Ficam pensando o que será dos seus próximos finais de semana sozinhos e o que farão com aqueles planos do natal e do réveillon.

Tudo isso até encontrarem uma nova pessoa, que fará elas pensarem que enfim estão amando de verdade como nunca amaram. E então, esta nova pessoa passa a ser o homem ou a mulher de sua vida! Tô errada? Então é isso aí que eu chamo de "não existe regra específica".

Cada um concorda com o que melhor lhe convir.Você está lá, naquele bar lotado, até que uma pessoa lhe chama atenção, você puxa assunto, fica, namora e em pouco tempo está amando com aquela febre de "eu te amo" pra cá… "eu te amo" pra lá. Você está ali, indo almoçar apressado por conta do cliente das duas horas e se depara com uma pessoa bonita.

Você tem uma oportunidade, conhece melhor, fica, namora, às vezes até casa e se vê amando novamente, fazendo juras de amor, planos e falando "eu te amo" no lugar de "bom dia". E quando terminar, vai sofrer, vai chorar, vai falar que perdeu o homem ou a mulher de sua vida…. até….. conhecer alguém novo que será nomeado a tal função.Acreditem, é assim que funciona. Vocês sabem e vivem isso diariamente em suas vidas e nas vidas dos seus "ao-redores".

Vai viver isso exatamente pelo tempo que DEUS permitir, "amando" um depois do outro…

Até que um dia, você vai entrar na sala da casa de sua tia e vai olhar dentro do olho de um rapaz que vai estar sentando no sofá ao lado da porta, recém chegado de outra cidade. Vai reparar que além de todos os sons terem sumido de repente, os olhos dele também olharam exatamente dentro dos seus.

 Vai esquecer de todas as pessoas ao redor, aliás, que pessoas? Vai sentir e vai escutar a sua respiração, depois de um tempo, voltando ao normal e quando o gelo da cena congelada começar a derreter, você vai arrastar a sua prima pra cozinha e entupir ela de perguntas sobre a pessoa, sem que ninguém perceba. 

Vai passar a criar coincidências que jamais existirão para vê-lo de novo, vai conhecer melhor, vai ficar, vai sentir que está amando mas não vai saber rotular isso como amor JAMAIS. 

Vai ter medo dos seus sentimentos, não vai saber como agir, e mesmo depois de uns bons anos você ainda vai tremer quando ver o nome dele no visor do seu celular. Vai ter aquela dor de barriga de ansiedade quando quiser procurá-lo e mesmo distante vai ter sempre a certeza de que é ele. Vai ter um orgulho inexplicável. Todo mundo que entrar em sua vida, mesmo que de passagem, vai ouvir falar dele.

Você vai querer que todos o conheçam e não vai admitir que ninguém tenha má impressão ou fale mal. Vai defendê-lo, vai observar a vida dele mesmo que distante e vai conhecer muitas pessoas depois dele, mas por melhor que seja, depois de um tempo vai perder a graça, porque é ele, só ele. 

Você vai descobrir que ele briga com o destino, vai ver ele com outras pessoas, vão tentar fugir um do outro pelo tempo que conseguirem, até DEUS enxergar os dois atrás de outras pessoas e retirá-los friamente os jogando um ao outro novamente. 

Vão fugir por uma eternidade e serão encontrados sempre nas curvas da vida. Porque é amor. Na sua mais real e verdadeira forma. Um amor que dá medo de se viver, porque não querem que canse.

 Um sentimento difícil de entender e de se rotular e uma vontade enorme de ser aceito. E então, vai olhar para sua melhor amiga e vai sorrir, dizendo que parou de procurar o novo, porque já encontrou o que nunca mais vai encontrar em outro alguém. 
E vai dizer baixinho toda noite: É ele!


(Autor Desconhecido)

domingo, 5 de fevereiro de 2017

PRESENTE DE ANIVERSÁRIO



Gostava de vinho, mas pouco bebia. A labirintite herdada da mãe, não permitia que Sophia fosse além de duas taças. Mas aquela noite exigia que ficasse bêbada! Afinal, não é todo dia que se completa dezoito anos.
Sophia estava em São Paulo desde os treze, quando foi estudar balé no municipal. Era a melhor no que fazia e já cotavam-na para primeira bailarina. Morou com a tia paterna até os dezessete e quis a “independência” desde que tornou-se professora particular e pode sustentar-se. Dividia o apartamento de três cômodos com Ana, que além de amiga do colegial estudava e lecionava música na mesma escola.
Não era o primeiro aniversário que passava longe dos pais, mas aquele trazia mais saudade que os outros. Era a metamorfose da menina doce e ingênua que saiu do interior para tentar a vida na cidade à mulher que se tornara; decidida, forte e corajosa.

_O cardápio da noite faz juz à data. – murmurou Ana, com ar de deboche, enquanto enrolava o macarrão instantâneo no garfo. – você merece mais que isso, Amiga! Venha... Vamos comer uma pizza. – e puxou Sophia pelo braço em direção a rua. 

_Não quero! Já tomei três taças de vinho. Se eu ficar tonta no meio da rua amanhã não vou poder dar aula. Já é de estranhar uma bailarina com crise de labirintite, imagine de ressaca.

_Deixa de besteira! Você merece, e hoje podemos tudo! Se você cair eu te seguro.

E seguiram pela longa avenida que dá de encontro a São João. A noite parecia divertida naquele início de Dezembro. Algumas luzes já piscavam nas sacadas dos prédios anunciando o Natal, que para Sophia, sempre trazia um pouco de recomeço. 
O riso, a alegria, a liberdade que a idade trazia... Contagiava quem visse aquelas duas andando pelas ruas com a última garrafa de vinho à mão na volta pra casa.

_Acho que já estamos bêbadas! – disse Sophia.

_Acho que sim. Já estou vendo o mundo escurecer... – respondeu Ana segurando o braço da amiga enquanto colocava a chave na porta e forçava para abri-la. 

_Faltou energia!!! – disse o vulto que passara no corredor – Era Gabriel, o vizinho do andar de cima, que gentilmente abriu a porta e sumiu na escuridão.

_Estou morta! Mas, a noite não pode acabar assim... – Senta aí que eu vou tocar uma música pra você... – dizia Ana enquanto empurrava Sophia contra o sofá vermelho carmim e trazia para os ombros o violino que estava a empoeirar na prateleira de cima da estante. Afinou-o e tocou como há muito já não fazia.

A música embalava as duas... Que por certo já não se distinguiam no breu.
A vela acesa numa mesinha qualquer de cabeceira revelava apenas sombras... De bocas que chegavam-se mais perto, de mãos que agora deixavam de tocar o violino ou qualquer coisa, para enfim, tocarem-se.
O som parou, de repente. Porque a melodia já se fazia outra, onde o instrumento era o próprio corpo.
Ana começou devagar. Desfazer as tranças da menina na noite de núpcias, era um ato tão sagrado quanto beijar-lhe a testa durante a cerimônia de preparação, então, Ana apagou as velas e abriu as cortinas, para que a Lua, e, apenas a Lua, testemunhasse o que estava por vir – ajoelhou-se e trouxe-a pra perto.

_Você quer? – sussurrou no ouvido da Amada nunca revelada.
_Mais que a minha própria vida!

Afastou, então os botões da blusa já amassada e tocou os seios com a ponta dos dedos – estavam firmes. Olhou-os com o desejo e a sutileza de quem toca Chopim. Percorreu todo o corpo com a ponta da língua, sentindo seu cheiro e seu gosto que misturavam-se em intervalos longos e ofegantes de gritos roucos. 
Num golpe ingênuo e inconstante deu-lhe o céu – e o badalar dos sinos e o grito dos anjos, enquanto o relógio tocava meia noite.
Voltou-se pra trás e fechou os olhos, desmanchando o restante do penteado, agora, sem importância. No entanto, era como ter a presença da Ninfa e da Deusa, da cisnes e da fênix, diante seus olhos, já não mais emersos no corpo de Sophia, mas na beleza angelical da face, tão nua, branca e latejante quanto o resto do corpo.

    
Helena Cardoso



sábado, 26 de março de 2016

VOCÊ É DOIDA POR MIM



Não adianta dizer
Que nada resta em seu peito
Se toda noite em seu leito
A saudade vem bater
E se insiste em dizer
Que é “não” eu ouço “sim”
Que o que houve não tem fim
Ninguém consegue mudar
Dá pra ver no seu olhar
Você é doida por mim.

Você recusa o meu beijo
Meu abraço, meu carinho
Mas seu coração sozinho
Reluta contra o desejo
Aproveita o ensejo
Pra dizer que sou ruim
Nega tim-tim por tim-tim
Mas ta louca pra voltar
Dá pra ver no seu olhar
Você é doida por mim.

Se por acaso você
Sentir falta dessa cama
Esqueça o melodrama
E venha logo me vê
Não pergunto o porquê
Nem vou lembrar de pantim
Só quero que seu jardim
Traga o sol pra me alegrar
Dá pra ver no seu olhar
Você é doida por mim.


(Helena Cardoso)

quarta-feira, 16 de março de 2016

SOBRE A VONTADE DE FICAR


Não afirme que a nossa relação
Foi trocada por dinheiro, luxo e fama
Que as verdades superaram qualquer drama
E a sua teoria vai ao chão
Mas o fato é que não tem precisão
De mentir pra poder se enganar
Se no fim você mesma vai provar
Que a saudade bateu na despedida
Como um vento passei na sua vida
Mas eu fui com vontade de ficar!

Eu me lembro de cada juramento
Que fizemos nas noites de inverno
Um amor que dizia ser eterno
Acabou no primeiro advento
Impossível aceitar que o casamento
Tenha sido desfeito no altar
Mas a vida é como onda em meio ao mar
E a maldade acaba sendo destruída
Como um vento passei na sua vida
Mas eu fui com vontade de ficar!

Você pode afirmar para os parentes
Que não pode me dar nem mais respeito
Você pode gritar, bater no peito
Pra dizer que mais nada por mim sentes
Você vai devolver os meus presentes
Pra mais nada de mim querer lembrar
Só não pode do peito me arrancar
Que a paixão vai e abre uma ferida
Como um vento passei na sua vida
Mas eu fui com vontade de ficar!

Fico aqui matutando em meu juízo
O motivo da sua traição
O porquê dessa insatisfação
Se eu era o motivo do seu riso
Se fui eu quem ficou no prejuízo
Sem poder nem um beijo lhe ofertar
Fui privada do direito de amar
E no fim da história fui banida
Como um vento passei na sua vida
Mas eu fui com vontade de ficar!

Sei que agora que tudo se acabou
A imagem do amor foi para lama
Só que a noite deitada em sua cama
Você lembrar das noites que me amou
Nós sabemos o porquê do “acabou”
Mas você sempre insiste em me culpar
Se um dia você quiser voltar
Vai ser duro, mas a magoa é esquecida...
Como um vento passei na sua vida
Mas eu fui com vontade de ficar!

(Helena Cardoso)

quinta-feira, 10 de março de 2016

PRA QUÊ?


Quatro pés, duas histórias
Cruzadas num só caminho
Amor, afeto, carinho
Dias de luta e de glórias
Registrados em memórias
De um destino traído
Pelo tempo confundido
E desfeito numa cilada
Para que uma rede armada
Com tanto sonho perdido?

(Helena Cardoso)

SOBRE AS LEMBRANÇAS DA REDE


De um sentimento desfeito
Sobrou somente a lembrança
Embalando a esperança
De um Amor quase perfeito
Que ainda aperta o peito
Como marca de alicate
Não há foto que retrate
O que aqui foi vivido
Ainda choro escondido
Na rede cor de abacate.

(Helena Cardoso)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

SOBRE A REDE



Era o nosso casamento
E os filhos que chegariam
As lutas que travariam
Pelo nosso juramento
Era o nosso pensamento
Que foi no tempo esquecido
Meu coração iludido
Sofreu mais uma mancada
Para que a rede armada
Com tanto sonho perdido?

As juras de Amor eterno
E a loucura da paixão
As mãos dadas no verão
O abraço quente do inverno
São páginas de um caderno
Que você não tem mais lido
O nosso amor foi banido
E a história violada
Para que a rede armada
Com tanto sonho perdido?

Você rasgou os retratos
E devolveu os presentes
Já mentiu para os parentes
Sobre o ciúme dos atos
Só que não diz que os boatos
É o que tem agredido
E o Amor foi vencido
Em meio a uma cilada
Para que a rede armada
Com tanto sonho perdido?

Não adianta fingir
E dizer que me esqueceu
Que o nosso amor morreu
Ou não vai se repetir
Você não sabe mentir
E já tá arrependido
Mas seu orgulho ferido
Deixa a saudade abalada
Para que a rede armada
Com tanto sonho perdido?

Podia ter qualquer cor
Branca, preta, escarlate
Mas era cor de abacate
A rede do nosso amor
Hoje é símbolo de dor
E de um sonho dividido
É sentimento invertido
E a saudade faz morada
para que a rede armada
Com tanto sonho perdido?

Vou arrumar a mudança
E colocar numa mala
Tirar ela lá da sala
Só pra ficar na lembrança
Guardar no peito a esperança
De tudo que foi vivido
E quando for repetido
Voltará a ser usada
Para que a rede armada
Com tanto sonho perdido?

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

MATANDO UM LEÃO POR DIA

Dias de luta e dias de glória!
Em tudo devemos dar graças a Deus, porque eterna é a sua misericórdia!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

DESPINDO-ME

Por mais que você "seja forte", sempre haverá um dia em que o fardo parece mais pesado. Nesse dia, a maquiagem não lhe faz falta. Nesse dia as olheiras tem um peso maior e os 5kgs a menos não vão te deixar mais leve. No dia em que tudo te traz saudade e lembrança você começa a perceber que "ficar doente" te deixou mais emotiva, mais realista. Você começa a reparar nos detalhes das coisas como se fosse a última vez que estivesse olhando pra elas; funciona como o Poema do Menino Jesus de Fernando Pessoa e as cinco pedrinhas no degrau de casa... 
E outra vez menina, hoje, eu só queria dormir e acordar em Paz; a Paz que merecemos. Mas, se Deus me concedesse a graça de um último desejo, certamente eu pediria pra ver outra vez o sol partindo através do brilho dos teus olhos... Eu queria aquele sorriso pela última vez; porque é dele que eu lembrarei quando Deus resolver me despir e levar-me, outra vez, pra casa.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

NINGUÉM MORRE DE AMOR


Quando um relacionamento acaba não precisa ser estampado nas redes sociais... Não é preciso ser semeado ao vento ou gritado ao som de palavrões, desacatos e xingamentos, loucuras ou insanidades - as pessoas por si sós irão notar as mudanças, os sorrisos, o pranto, a decepção ou a felicidade sem que haja a necessidade da mau criação, do desespero e tão pouco da baixeza de nível que tantos e tantos "casais" se submetem; expondo sua vida particular e até mesmo sexual. Admiro quem entra e sai da vida do outro de cabeça erguida e com a satisfação de dever cumprido! É bonito saber que o sentimento durou até quando foi bom pros dois - mais que isso - que não ficou nenhum ponto de frustração ou de culpa no meio das lembranças que um dia hão de bater à porta... Terminar um namoro, aceitar a separação... Não são sinais de que alguém venceu ou perdeu uma guerra - é sinônimo de que sentimentos se transformam a todo instante e que existem pessoas maduras e sensatas no meio disso tudo; então, é bom que haja educação bastante pra saber que o mundo não acabou porque o amor sofreu metamorfoses... Que existe um mundo lá fora que não gira tão somente em torno da cabeça ou do umbigo de alguém... E que existem vida pós decepção. Então aquela pessoa não se tornou a pior do mundo de uma hora pra outra só porque o tesão foi perdido... Pra isso, é essencial que não se confunda Amor com Solidão e Paixão com Necessidade. Se você se envolveu com alguém por solidão, necessidade ou orgulho ferido, quando o encanto acabar o sentimento de culpa vai se tornar tão maior quanto o medo de recomeçar... Quando o Amor ou a Paixão acaba isso não acontece... A amizade fica! Porque ela, a Amizade, foi a base de tudo... Então, ver o outro tentando seguir a vida não será tão masoquista quanto o ato de esconder-se por trás do próprio medo de admitir que errou, que foi estupido, que merece dar e receber o perdão. Chega a ser patético e ao mesmo tempo cômico, a maneira com que as pessoas falam de Amor e no entanto controvertem a própria teoria sobre ele... A maneira com que planejam a caminhada depois do fim do caminho e mesmo assim ainda olham pra trás buscando razões para "odiar" os momentos bons, as lembranças felizes... sofrem pela própria opção... Eu gosto de quem se atreve a ir, mesmo que sangrando, atrás do que quer e... tem a honestidade de admitir que errou. Pessoas que pulam muros, gritam em portões... E se entregam àquela emoção de que "pelo menos tentei". E luta até a última gota de sangue porque os momentos de frustração, de tristeza e de magoa são insignificantes diante de todas as coisas boas que se viveram. Tem muita gente que atira pedra no relacionamento, só porque não deu certo, ou porque em algum momento se decepcionou com a outra pessoa. Eu prefiro dizer que tudo é aprendizado e se quer saber... "Eu fui Feliz, sim!" Não posso me esquivar em dizer isso. Amei e FUI amada. E se não deu mais certo, se nunca mais der certo... é porque tiveram motivos superiores pra isso. Mas é loucura querer tapar o sol com a peneira. Ninguém mente pro coração. Então, que a maturidade se estabeleça ao que cabe à nossa idade; porque sobre isso, não mais comento... Deixemos que o tempo cure a chaga do orgulho ferido - ninguém morre porque amou demais.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

CONSELHO A UM JOVEM


Se eu pudesse dar um conselho aos mais jovens eu diria que não desista da Felicidade por mais difícil que ela pareça. Ame sem importar-se com o dia seguinte... Dance da maneira que lhe der na telha. Veja os entardeceres como se cada um deles fosse o último; abrace mais. Reclame menos... A gente passa muito tempo reclamando das coisas. Veja o lado bom em acordar cedo, em sair pra trabalhar, em voltar pra casa. Agradeça por comer feijão e arroz todos os dias e por ter alguém que pegue tanto no seu pé sobre a toalha molhada em cima da cama.
Quando a gente chega numa certa etapa em que sabe que todas essas coisas tem um sentido real, embora simples... É que nos damos conta de quanto tempo foi perdido com besteiras.
Se eu pudesse dar um último conselho, eu diria as pessoas que se façam o que tem vontade, mesmo que quebre a cara. Pule muros, grite em portões, abrace quando não quiserem lhe abraçar de volta... Não há quem resista a um abraço roubado. Perdoe. Peça perdão! Não tenha culpa por não ter tentado. E dispa-se de problemas desnecessários. Preocupe-se menos com a conta de luz do mês que vem ou com o quanto de biscoitos seus filhos comeram antes do jantar. Existem problemas maiores que um atraso de meia hora do seu marido ou daquela velha neura de manter as coisas organizadas na sua casa. Bagunce-a qualquer dia... E perceba como isso é divertido. Inverta os móveis de lugar... Durma de cabeça pra baixo na cama, experimente dormir no tapete da sala algumas vezes. Tire a capa do sofá algum dia... Afinal para que um sofá novo na sala se você insiste em esconder sua beleza?! Jante com os talheres de prata da sua avó... use a louça inglesa que é herança de família... Use mais sua sala de jantar que ultimamente só é utilizado o espelho para fotografias de redes sociais.
Experimente andar de ônibus, andar a pé... Preste mais atenção na Natureza, no vento que deixa seus cabelos emaranhados... Coma besteira pelo menos uma vez na semana; mas de vez enquanto faça dieta. E sorria... Lembre-se de que em todas as dificuldades o sorriso é a arma secreta de luta.
Viva bem... Mas viva ao lado de pessoas que te fazem melhor - que te impulsionem pra frente, que te desafiem e que te mostrem todos os dias uma razão para viver e não simplesmente existir.
Porque assim, quando tudo parecer mais próximo do fim, não haverá frustração. A satisfação do dever cumprido é o maior presente que podemos nos dar.



sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

I DREAMED I DREAM

Eu sonhei um sonho... 
E dele sobrou o vermelho carmim dos lábios.

SEM MOTIVOS


Já repararam no quanto de vida desperdiçada há em querer agradar os outros?
Perdemos metade do nosso tempo nos preocupando se nosso cabelo está apresentável, se nossa roupa está bonita, se estamos magra demais, gorda demais... Se dá pra perceber as olheiras... Passamos metade do nosso tempo avaliando o que as outras pessoas vão avaliar ao nosso respeito e nos esquecemos do mais importante.
Esquecemos de preparar o que há dentro de nós.
Esquecemos de regar o Amor, de podar o ciúme... De cortar a raiz da inveja... Nós esquecemos até de viver! A gente se preocupa tanto em agradar, em aparentar, em fingir... que as vezes a realidade parece cruel e inalcançável. 
Acho que minhas sessões de análise estão valendo à pena. Eu tenho começado a enxergar o mundo com outros olhos, as pessoas com outro olhar... E estou começando a ver o meu próprio reflexo que antes já tinha se apagado até do espelho. E hoje de manhã quando abri a porta do banheiro para escovar os dentes eu percebi o quanto de tempo tinha se passado em mim. Já se foram quase trinta anos... E até outro dia eu só queria ter dezoito. Dez anos se passaram tão rápido que eu parei de me dar conta que eu fazia parte da história; exatamente porque passei minha adolescência preocupada com a idade adulta e quando cheguei a fase adulta eu só me preocupei em encontrar a tal Felicidade.
Por vezes esqueci que ela estava nas coisas simples e incompráveis e que não dependia de outra pessoa se não eu mesma pra que fosse plena e terna. E então, entendi a frase de Drummond: "Ser Feliz sem motivo, é a mais autêntica forma de Felicidade".